Clara Sampaio
Azul (2019) é uma série de desenhos que propõe um léxico ilustrado a partir de expressões que atravessam os contextos histórico-políticos do Brasil e de Portugal. Utilizando papel carbono azul — material frágil, mas historicamente associado à reprodução e disseminação rápida de informações em ambientes de militância —, cada desenho revisita frases que circularam em ambientes de poder simbólico, econômico ou institucional, muitas vezes ligadas à repressão, privilégio ou desigualdade. Termos como Mosca azul, Lápis azul, Saco azul, Bilhete azul, Sangue azul e Colarinho azul reaparecem aqui como vestígios de estruturas sociais e políticas que marcaram os dois países, sobretudo durante os períodos ditatoriais.
O projeto ativa uma escuta e o olhar sobre essas expressões em desuso ou esvaziadas pelo tempo, trazendo-as de volta como indícios de sistemas ainda persistentes. Mosca azul, inspirada no poema de Machado de Assis, alude ao deslumbramento com o poder; Lápis azul, símbolo da censura no Estado Novo português; Saco azul, associado ao desvio de verbas (expressão similar à "Caixa Dois", no Brasil); Bilhete azul, sinónimo de demissão repentina; Sangue azul, evoca a ideia de nobreza; e Colarinho azul, termo que designa os trabalhadores operários — frequentemente invisibilizados nas narrativas de poder.
Ao retomá-la como ilustrações, tensiona-se a autoridade desses discursos, produzindo uma espécie de arqueologia gráfica de palavras que moldaram imaginários sociais e ainda reverberam nas entrelinhas da linguagem cotidiana.
Tal como essas expressões que, pouco a pouco, se esvaem da linguagem corrente, também os desenhos são alvo desse apagamento: sua matéria, essencialmente frágil, só permite a visibilidade enquanto a tinta que impregna o papel permanece fresca.
Legenda dos trabalhos:
Mosca azul, desenho em papel carbono, 30 x 21 cm, 2021
Saco azul, desenho em papel carbono, 30 x 21 cm, 2021
Lápis azul, desenho em papel carbono, 30 x 21 cm, 2021
Lápis azul, cópia manual em papel branco, 30 x 21 cm, 2021
Bilhete azul, desenho em papel carbono, 30 x 21 cm, 2021
Colarinho azul, desenho em papel carbono, 30 x 21 cm, 2021
Sangue azul, , desenho em papel carbono, 30 x 21 cm, 2021.
Exposição Viva Brasil, com curadoria de Nelson Ricardo Martins, Colégio das Artes, 2022