A Paixão Mora no Mistério 
Liliana Sanches


ESTRELA VULGAR A VAGAR1


Texto realizado para o catálogo da exposição  A Paixão mora no Mistério, da artista Liliana Sanches, realizada no Museu de Arte do Espírito Santo, Brasil, 2025.

A exposição A Paixão Mora no Mistério, de Liliana Sanches, é uma colagem de tempos, matérias e estados sensíveis. Em uma espécie de sonho sem começo nem fim, caminhamos por capítulos dessa narrativa: o que ainda não pode ser nomeado vai se manifestando, então, em signos.

É como se um ser — com muitas caras e personalidades, meio roqueira, descolada, complexa, cabeça aberta; meio mãe, atenta, preocupada, zelosa; e ainda cosmonauta, fascinada pelos deslocamentos do universo, encantada com o vai‑e‑vem das ondas, com os enigmas da noite e do oceano profundo, com todas as criaturas, o brilho das estrelas, o silêncio do infinito —, ufa! em toda essa complexidade, tivesse surgido no nosso caminho. E, ao ver‑nos, nos convidasse, em uma língua misteriosa, a visitar sua morada.

Vamos juntas, em silêncio, com cumplicidade e afeto. Um olho nos aguarda antes de subir a escada — dele brota um galho seco de uma planta que não mais está ali. Respiramos fundo e subimos. Entrar na casa de alguém é um exercício de cumplicidade e vulnerabilidade.

Enquanto avançamos, lembro‑me da aventura protagonizada por Tilda Swinton no curta "Catrice” (1986), de Joanna Hogg. Aficionada pela revista de moda homônima, se vê tragada para o universo delirante das páginas da publicação. Anúncios ganham vida e transformam-se em personagens, e aquilo que antes vendia sedução e beleza, parece compor um mundo duvidoso e instável. Deslumbramo‑nos com Tilda no filme; na exposição, com Liliana — ambas explorando ambientes estranhamente familiares2, ainda tateando a realidade entre o sonho e a vigília.

Custa um pouco entender onde estamos, mas, pouco a pouco, percebemos que, nesse estado onírico de descoberta, delírio e prazer, também há cansaço, esforço, fuga. Decorado de forma particular, tudo parece funcionar segundo a lógica e as leis de uma outra física: objetos pesados pairam no ar sem esforço; frutas deliciosas capturadas no seu momento perfeito hão de permanecer assim, eternamente. Há um perfume delicado no ar — cheiro de vida e de morte, regeneração: no fundo do peito esse fruto, apodrecendo a cada dentada3.

Por entre tecidos e brilhos, camadas de si (e do outro), por baixo e acima da superfície, sobrevive esta anti‑heroína. Enquanto tropeça, desastrada, nos astros4 e nas emoções, descobre que o mundo está em constante transformação, mas seu corpo é capaz de guardar tudo que viveu.

Um cansaço antigo atravessa o espaço como poeira — é quase possível tocá‑lo. Há algo do cuidado materno e do esgotamento nessa estética que une o cosmo imenso ao íntimo, ao doméstico. Somos pegos imóveis nessa brisa, mas Liliana não nos deixa cair nas ciladas do amor moderno5.

Nesse planeta de afetos desencontrados, o amor — longe de ser consolo — revela‑se princípio ativo, lugar de delírio e de reimaginação de mundos. A intimidade do ambiente doméstico funciona como estúdio e cápsula emocional viajante. À sua volta, objetos ganham aura de talismãs: conchas e frutas maduras, relicários, pérolas, galhos de árvore, olhos que nos observam — meio cansados, absortos em si mesmos. Enigmáticos, estranhamente belos, emitem uma frequência de sonho e desejo que nos afeta.

Somos atravessadas por essas inquietações. Que privilégio e que delícia entrar nessa nave. A artista abre a porta do seu quarto‑planeta não para nos expor à sua intimidade, mas para nos ajudar, talvez, a reconhecer as nossas próprias contradições. Há uma certeza: o desejo, mesmo ferido, ainda é possível; e o descanso, necessário.


1.
O título toma emprestada uma frase da canção “Hotel de Estrelas” (1972) de Jards Macalé, interpretada por Gal Costa.

2.
A expressão refere-se ao conceito proposto por Freud (em alemão, unheimlich), que descreve a experiência ambígua de inquietação gerada pelo reconhecimento inquietante de algo familiar.

3.
Também da canção “Hotel de Estrelas” (1972) de Jards Macalé.

4.
Da canção “Livros” (1997) de Caetano Veloso, por sua vez, baseada na música “Chão de Estrelas” (1937) de Silvio Caldas e Orestes Barbosa. 
 
5. David Bowie, em Modern Love, faixa do álbum Let’s Dance (EMI, 1983). A canção expressa a tensão entre o desejo afetivo e a descrença nas promessas do amor moderno, revelando um sujeito dividido por contradições, oscilando entre o impulso de se entregar e a resistência, seja ao amor ou à religião.

Ficha Técnica Artista
Liliana Sanches

Curadoria
Clara Sampaio

Design Gráfico
Felipe Gomes