Vem, escuta no meu peito o som elementar
dos metais

Natália Loyola

Texto realizado para a exposição de Natália Loyola no Centro Cultural das Mercês, Lisboa, Portugal, Maio de 2025.
Uma frase extraída do poema Minas1, de Ana Martins Marques, estrutura esta exposição individual de Natália Loyola. Um chamado que, mais do que revelar o que motivou a criação dos trabalhos2, convida a uma aproximação íntima com os objetos: caminhe, indague-se, atravesse a aparência das formas.

No térreo, uma peça de barro — feita à mão, com sua rusticidade e aspereza imediata — está sozinha. Traz consigo pequenos dispositivos (ou seriam portais?) que, incrustados na matéria, revelam imagens em movimento que nos deslocam entre escalas e mundos.

Um dos vídeos traz imagens de um documentário sobre Claudia Andujar3. Nele, observamos uma organização social indígena, indiferente à lógica capitalista. Aqui, o humano é bicho; o bicho, parte de um ecossistema maior, interligado por redes que orientam os ciclos da terra, da luz, das marés. Plantar para receber. Viver para aprender e brincar. Cultivar, preparar, comer, descansar, se relacionar. Um tempo outro: alargado, circular, eterno. Em seguida, uma imagem microscópica de um grão de sal dá continuidade a essa narrativa. Um elemento banal, mas vital, que conserva, dá sabor, purifica. Presente no suor, nas lágrimas, nos minerais da terra e nos mares — unidade mínima que sustenta o todo. Por último, um vídeo nos leva ao Sirius, acelerador de partículas brasileiro. Lá, revela-se a estrutura atômica e molecular da matéria — base para a ciência, a medicina, a construção civil, a exploração de energia. 

Não por acaso, no andar superior, o segundo trabalho propõe também uma experiência coletiva. Um objeto metálico e enigmático repousa no espaço, ligado a um speaker do outro lado da sala. Só quem se aproxima e se arrisca descobre seu funcionamento. Apoiado delicadamente sobre pedras de sal, o objeto capta as vibrações e ruídos da sala. Há um compasso de espera, mas de forma quase mágica ouvimos reverberar pela sala, sem saber ao certo de onde, a emissão inicial. A artista quer provocar uma escuta compartilhada, um momento de atenção conjunta. 

O que Natália traz à superfície é o invisível comovente: a suposta frieza da ciência desarma-se diante do toque, da vivência, da matéria moldada em várias mãos, do precisar do outro para ser ouvido. Um tronco-raiz de barro como gesto coletivo; a visão microscópica como atenção e cuidado. 

É nessa tensão entre o fragmento e o monumental que a exposição se desenha. A condição “nano” - mínima, dispersa, ao se acumular vai ganhando força, vira montanha. Aqui, o mais e o menos visível se entrelaçam. De perto cria-se outra possibilidade; por baixo da terra, pulsa uma lógica própria: temporal e silenciosa. É ali que a artista vai buscar seu refúgio e encantamento, para então criar diálogos que agora podemos escutar e tocar. 
Vem.


1.
MARQUES, Ana Martins. O livro das semelhanças. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p.78.

2.
Os trabalhos foram apresentados anteriormente em duas exposições: o primeiro, na Mostra v.0.2 no Teatro Municipal da Guarda (exposição coletiva), e o segundo, na exposição SALARIS - Ficções a partir do Sal, nas Minas de Sal Gema de Loulé, Portugal,junto aos artistas Maura Grimaldi e Victor Gonçalves, 2025.

3.
Documentário sobre Claudia Andujar e o povo Yanomami no Brasil apresentado no contexto da Exposição “A Luta Yanomami”, curadoria de Thyago Nogueira no Instituto Moreira Salles, Rio de Janeiro.


NOTA BIOGRÁFICA

Natália Loyola (Campinas, Brasil) é artista visual e pesquisadora. Sua prática parte da fotografia e se desdobra em instalações que articulam geologia, linguagem e tecnologia para tensionar os vínculos entre matéria, discurso e poder. Com interesse nos léxicos científicos e nas narrativas coloniais que moldam o mundo mineral, sua pesquisa investiga a linguagem como força geológica e agora começa a propor obras que operam não apenas na representação, mas como situações sensíveis entre corpos, objetos e espaço. É Mestre em Antropologia / Culturas Visuais pela Universidade Nova de Lisboa (Portugal) e graduada em Comunicação Social pela PUC-Campinas (Brasil). Em 2024, realizou a individual A pele da terra (Coletivo Amarelo, Lisboa), participou da XXIII Bienal de Arte de Cerveira, onde recebeu o Prêmio Aquisição, e foi contemplada pelo programa Culture Moves Europe e pela DGArtes.


AGRADECIMENTOS

Fabiana Trindade, Pedro Xakriabá, Cristiana Tejo, Rubi Florence, Maura Grimaldi, Victor Gonçalves, Lika Rodrigues, Sofia Steinvorth, Flávia Regaldo, Luiza Baldan, Rafael Moretti, Nico Espinoza, Manuel Borges, Tati Batalha, Duda Las Casas, Mariana Varela, Marisa da Anunciação, Amanda Balthazar e JP Galvão e Ana Grebler, Thiago Carrapatoso, Alexandre Andrade, Renato Godinho, Alejandro Urmeneta, Juan Larrasoaña, Hugo Rodrigues e Maurício, Giovanbattista Tusa e Clara Sampaio.