Entre Nós (2019 e 2021)
Programa de Residências no Mosteiro Zen Morro da Vargem


Entre Nós (2019)


Junho-Outubro

Entre Nós deriva de uma proposta anterior, o Cá Entre Nós, projeto que aconteceu em quatro edições até 2018, e que, entre exposições e ações educativas, tinha por objetivo criar diálogos entre a cena artística do estado e o cenário nacional. Esse novo projeto, que guarda o embrião de seu antecessor, se lança às questões específicas de um programa de residências. Dispomo-nos a pensar o que constitui nosso estar no mundo, nos abrindo a pensar formas de coexistência que resgatam questões urgentes no interior da sociedade e da arte contemporânea.

Entre nós surge, assim, de um desejo de convocar pessoas cujo interesse por
práticas contextualizadas com os lugares em que se inserem são o ponto de partida para imaginarmos cenários futuros, como vivermos juntos, com todas as contradições e desafios que esse exercício pode nos colocar.

Essa primeira edição, acolhida especialmente pela OÁ Galeria e pelo Mosteiro Zen Morro da Vargem, se dirige a tais provocações para assumir nossa porosidade e vulnerabilidade ao entorno como potência. Foi assim que partimos dessa e de outras estratégias curatoriais para gerar confluências a partir de Vitória e Ibiraçu, conectando o estado do Espírito Santo ao Pará, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, e o Brasil a Portugal.

Entendendo o trabalho curatorial como proposição de encontros, lançamos uma ideia no ar. E ao abraçar a fragilidade da promessa, a excitação do porvir, desejamos com isso ir na contramão da vida cotidiana, que nos empurra a modelos e resultados concretos. Ao repensar esses procedimentos desconstruímos lógicas de produção mais tradicionais e refletimos sobre nosso papel político no mundo, acreditando no lugar da arte (e da residência artística) como propulsora de transformações e experimentações.

As residências realizadas partiram da vontade de (re)aprender a se conectar com o presente e com o corpo, valorizando a partilha de vivências pessoais e outras possibilidades de criação. Apostando na condução de cada uma das pessoas envolvidas nesse processo, desenhamos em conjunto quatro residências, entre os meses de junho a outubro de 2019.

As artistas Juliana Pessoa e Liliana Sanches ocuparam, cada uma em seu tempo, o espaço de uma galeria de arte que é também uma casa, movendo-se de seus ateliês cotidianos a esse novo espaço, que apesar da escala do doméstico, desafia por sua outra rotina, códigos e habitantes. Já no Mosteiro, Alexandre Sequeira vai em busca do que tem sido o grande mote da sua prática artística, a experiência (do) comum, e encontra, na solidão da casa de vidro da Estação Cultural, uma nova possibilidade de conviver com o outro. Com a residência coletiva, junto à Mata Atlântica e ao universo particular do Zen Budismo, nos lançamos ao desafio de criar um espaço de convivência temporário, lugar em que dividimos nossas inquietações, processos criativos e tarefas do dia-a-dia.

Há muito o que contar e a publicação que fizemos é apenas um pequeno gesto: o que fica, em essência, é a própria experiência vivida e as relações que construímos nesse breve período de tempo. Cabe então nutrir o gérmen do encontro e acompanhar com atenção essa página escrita entregue ao fluir dos ventos, que como as apostas mencionadas anteriormente, não se sabe onde há de dar ou brotar.

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Na edição de 2019, foram residentes: Alexandre Sequeira; Juliana Pessoa; Liliana Sanches (residências individuais); Bárbara Carnielli, Esther Azevedo, Marcelo Venzon, Tadáskía, Lorena Pipa, Luana Vitra e a curadora convidada Juliana Gontijo (residência coletiva).

Desse projeto resultaram cinco bate-papos abertos ao público, dois na sede da OÁ Galeria e os demais na Universidade Federal do Espírito Santo, em parceria com o projeto de extensão Plataforma de Curadoria, além de uma publicação impressa. A publicação foi realizada com a documentação produzida pelos próprios participantes com projeto gráfico do designer Paulo Prot.





01.Imagens da residência coletiva e da residência de Alexandre Sequeira

 

Entre Nós (2021)


Apostando no debate urgente sobre demandas de ordem ecológica, coletiva ou individual, a segunda edição do projeto Entre Nós se propõe como uma experiência nova de residência. Oferecendo muito mais do que um espaço temporal e físico para a produção artística, apostou-se por imersões em profundo contato com o lugar e seus habitantes. 

Os envolvidos nessa edição se entendem como agentes transformadores, indivíduos que de forma consistente atuam na construção de outros cenários sociais possíveis. Assim, Entre Nós comunica desde o sensível uma aproximação com a natureza e o campo, mas também com formas mais sustentáveis de habitar a cidade (e o planeta). O projeto reflete sobre as questões sociopolíticas ligadas a um estar no mundo mais presente e ativo, do consumo consciente como gesto político e de cuidado consigo próprio e com os outros; do manejo inteligente dos subprodutos da indústria como forma de lidar, agora, com um problema real e urgente.

Pretende-se com isso, ao fazermos uso da imaginação radical como ferramenta estratégica, fomentar modos de vida alternativos, chamar atenção para a grave crise social que estamos atravessando, e que, de certa forma, deve nos preparar para as próximas que brevemente virão.

A partir de uma metodologia teórico-prática, as residências foram pensadas como ações simbólicas, que a partir da escuta orientaram a ação. Cada uma delas previu tempo para a pesquisa prévia sobre as condicionantes de cada contexto de imersão: Leonardo Remor e Denis Rodriguez receberam, por meio de orientações online com a curadora, um material sobre o Mosteiro e estiveram em contato direto com seus habitantes de modo a conhecer a vegetação nativa, as características do solo e os projetos existentes no local; Neka Menna Barreto e Elaine de Azevedo construíram juntas uma série de encontros, no Mosteiro junto às comunidades dos arredores, e online, mapeando colaboradores da área da agronomia, saúde pública e nutrição para aprofundar o debate sobre alimentação; Juliana Lisboa realizou uma investigação na cidade de Vitória, sobre o uso exacerbado do plástico na vida contemporânea, um trabalho em campo com vistas a prototipagem ou esboço de um produto que pudesse instigar a criatividade na produção de mais pesquisas e investimentos na área. 




Agir agora com o que se tem



Entre Nós é um projeto de residências que se constrói a partir de uma investigação da experiência do viver. É uma proposição de um tempo e um espaço para ser, é, enfim, um lugar para o debate e a produção artística não mediada por processos mais tradicionais de conhecimento. 

Cada residente chega ao projeto pouco pode prever o que acontecerá em sua estada. Na relação que desenvolverá com o lugar e com seus habitantes, é o próprio lugar, em seus contextos espaciais e temporais, que devolve a ele ou a ela suas questões; que chama à atenção; à presença, à escuta, que apresenta novos códigos e desafios; e perturba (talvez) o hermetismo que por vezes acomete a arte contemporânea. Veja só: em um momento em que nos vimos mais fragilizados do que nunca, relembrados que a vida é um instante e o que ser humano faz parte de um ecossistema complexo de relações com a natureza; não basta estar, temos que agir.



02.Imagens da residência de Denis Rodriguez e Leonardo Remor, e da residência de Neka Menna Barreto e Elaine de Azevedo.
No ateliê-floresta da Estação Cultural, o tempo parece se comportar de outra forma: derrete-se, cria a ilusão de estar mais alargado; ao passo que é depressa, tudo é novo, fresco e inquietante, há muito que se absorver no Mosteiro. Em Vitória, em uma dinâmica completamente distinta, já que ali cada residente desloca seu espaço de produção e não sua morada, há muito que (re) aprender da cidade; o período da residência fica curto. 

Pois bem, o tempo é curto, a vida pulsa. E é este pulsar que em 2021, na segunda edição do projeto, se configurou como uma experiência entre praticantes e pesquisadoras; dentro e fora da Arte; para pensar a ideia de consumo de forma expandida: do que ingerimos, compramos e utilizamos; dos impactos dessa equação no planeta.

Para contribuir com essa reflexão, participaram os artistas Denis Rodriguez e Leonardo Remor, que juntos se debruçam sobre os saberes dos povos originários e do contato com os elementos primordiais: fogo, ar, água e terra. A chama derrete a parafina da vela cuja mão desenha paisagens celestes, cria camadas e texturas em colagens; os aromas da Chapada Diamantina preenchem a casa em um difusor coberto por uma renda de musgos; o barro moldado vira cerâmica para construir o maior japamala do Ocidente, espécie de terço budista, com o desejo de que alcance 108 voltas em seu eixo. 
Tudo é cuidado e pensado para formar o aqui e o agora, o que é desde sempre, reflexão que deu título à residência. Penso sobre a grande energia humana que será necessária para a construção do japamala e o quanto sua idealização nos coloca de volta ao centro da discussão: o desejo de estar junto de novo, conscientes do que nos rodeia. Um fazer que, por fim, pensamento ativo, como nos ensina o Budismo e seu Zazen.

Em um segundo momento, chegam as convidadas Elaine de Azevedo e Neka Menna Barreto para fazer da Estação Cultural sua casa. Trazem consigo um verdadeiro arsenal de alimentos que farão parte de sua investigação durante a residência. Essa colaboração inaugura um passo importante no projeto ao incluir duas figuras cujas atuações centrais não estão no campo da arte. Vindas dos campos da Nutrição e da Sociologia, do ativismo alimentar e da cozinha, Elaine e Neka trazem ao Mosteiro vários pedacinhos de Brasil. Assim contam a viagem do alimento: das mãos que semeiam, cuidam, colhem e distribuem a comida. Junto a essa riqueza de experiências coletivas, que como Elaine nos lembra, quem come nunca está só, organizam um verdadeiro banquete aos monges, um momento de partilha que em texturas, camadas e cores cria um mapa dos sentidos sobre a mesa.

Por fim, voltamos à Vitória, colocando o corpo de volta ao cotidiano urbano e seus desafios. A designer Juliana Lisboa conduz uma pesquisa sobre a presença do plástico na vida contemporânea, desenhando estratégias para lidar com a utilização exacerbada do material pela indústria e seu descarte geralmente inadequado. Em uma investigação prática, caminha pela cidade para registrar a perturbação da paisagem natural pela mão humana. Coleta embalagens e faz uso de ferramentas caseiras para dar novo uso a elas; prototipa alternativas de embalagens para o Festival da Torta Capixaba, abre um canal de escuta com o público por meio das redes sociais. Mostra que é possível agir agora com o que se tem, conectada à incrível provocação de Ailton Krenak de adiar o fim do mundo. 
Ora, despindo-nos de fatalismos, se o Antropoceno nos encaminha para o último estágio do planeta, o que podemos de fato é criar estratégias de desvio. 
Enquanto isso, de que forma podemos reavaliar nossa presença na Terra?


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Participaram os residentes: Denis Rodriguez e Leonardo Remor; Neka Menna Barreto e Elaine de Azevedo, e Juliana Lisboa. Desse projeto resultou uma publicação impressa com a participação do nutricionista e especialista em alimentação Fabio da Silva Gomes e da cozinheira Ligia Sâncio, além de um vídeo e um site.

Link para publicação 

oagaleria.com.br/entrenos