Museu de Arte do Espírito Santo
Texto de apresentação produzido por Clara Sampaio e Felippe Moraes, revisado e editado por Clara Sampaio em 01 de junho de 2021.
O projeto Tirante consiste em um conjunto de ações que partem da interlocução entre arte e arquitetura, curadoria e prática artística, projeto e execução. Foram postos em diálogo seis criadores que lidam com os pares conceituais mencionados de maneiras diversas tendo a materialidade da maquete arquitetônica ou da execução técnica como ponto de partida.
O projeto se estabeleceu como uma plataforma conjugada ao desenvolvimento de um projeto educativo, uma publicação e uma exposição, que ocupou virtualmente o Museu de Arte do Espírito Santo - Maes. Tirante, pela definição arquitetônica, é uma viga horizontal que está sujeita a forças de tração estrutural. Assim, tensiona, torna-se o mote para refletir sobre a interlocução entre campos, práticas e relações de poder no contexto de arte contemporânea.
Cada um dos artistas e/ou propositores envolvidos aborda e estira o campo da arquitetura de uma maneira específica: Felippe Moraes trabalha a obra de arte em uma escala arquitetônica monumental, conduzindo a experiência fenomenológica entre indivíduo/objeto construído/espaço; Clara Sampaio se interessa pela tradução como ferramenta de mediação entre práticas e disciplinas, como da arquitetura para a arte ou da curadoria para a prática artística; Anton Steenbock realiza um tensionamento por meio da ironia e da superação entre os limites da arte e da vida, com o lançamento empreendimentos imobiliários fictícios; Raquel Garbelotti lida com questões de memória e escala na arquitetura por meio da fotografia, do vídeo, de maquetes e objetos em escalas reduzidas.
A mostra partiu de dispositivos do campo da arquitetura, em especial a planta baixa e a maquete, como artifícios retóricos e poéticos para expandir a compreensão das implicações tanto das artes visuais quanto da arquitetura no relacionamento do sujeito e o espaço ao redor.
O projeto se caracteriza pelo seu aspecto limítrofe e híbrido, no modo como todos os artistas envolvidos inserem-se em práticas transversais, tanto no contexto geral de sua obra, mas em especial na proposta da exposição que, por sua vez, pretende justamente habitar esse território fronteiriço (entre campos, e também, entre o virtual e o físico). A proposta dessa articulação é baseada nas discussões perpetuadas pelos dois artistas-curadores Clara Sampaio e Felippe Moraes, como forma de dar conta de suas próprias investigações sobre a utilização da materialidade do projeto arquitetônico em suas práticas artísticas.
Sobre os artistas e trabalhos da exposição, Felippe Moraes consolida seu pensamento enquanto arquitetura por pensar em escalas cada vez mais grandiosas em que, a viabilidade de financiamento para obras desse porte e até mesmo as limitações construtivas colocam-se como empecilhos para sua concretização no momento atual. Portanto, utiliza-se de maquetes físicas e virtuais como ateliê e processo criativo, para estudo de suas implicações. Assim, as maquetes se constituem como espaço especulativo e de prospecção para o futuro. Dentre os projetos apresentados como maquete especulativa estão os projetos em escala de Declamação ao Horizonte, um monumental cone de aço corten de dez metros de comprimento desenhado como megafone analógico para que o espectador comunique-se com seu horizonte pessoal; e Torre do Silêncio, uma construção de concreto aparente de 16 metros de altura e uma escada espiral que desenha o volume da obra em que, a cada degrau, há um tubo de aço que permite a escuta de uma nota musical. Além desses projetos, a intenção era a de apresentar uma maquete e fotografias da obra Monumento ao Horizonte, construída no Caminho Niemeyer em Niterói (Rio de Janeiro).
Clara Sampaio, artista, curadora e arquiteta responsável pela reforma do Maes (junto à Arq. Mirella Schena) reflete, como artista, sobre o projeto do museu. Em uma intervenção que funcionaria como palimpsesto, insere-se na própria obra, de forma a experimentar as possibilidades curatoriais e expográficas do edifício. O trabalho de intervenção in situ trata-se de uma instalação que busca resgatar, com o uso de marcações no piso, o posicionamento das paredes internas que foram demolidas para ampliar o espaço expositivo do Maes, trazendo para a escala real o que em projeto arquitetônico se intitula Planta Baixa de Demolir/Construir. O trabalho assume, por sua escala, também a função de expografia, ao dividir os espaços e criar um diálogo com cada artista da exposição. Além disso, Clara Sampaio propõe a criação de uma maquete especulativa de como seria o espaço do museu a partir da sobreposição de todas as legislações de construção civil e museologia vigentes. Esse projeto não foi realizado, uma vez que a exposição se transladou ao espaço virtual.
Raquel Garbelotti apresentou, pela primeira vez no Espírito Santo, o trabalho Wind Fence (2017), que se divide em maquete e vídeo. O trabalho consiste em um modelo em escala de seu apartamento em Vitória, feito em acrílico branco e transparente, sobre uma base coberta de minério de ferro bruto. O vídeo apresenta a ação do minério negro sobre a estrutura alva da casa e reflete sobre a trágica situação das barreiras utilizadas por empresas mineradoras para diminuir o impacto de suas atividades sobre as comunidades vizinhas. Discute, com isso, questões sobre poder e autoritarismo, além de noções dos limites entre o público e o privado.
O alemão Anton Steenbock, possui uma pesquisa sobre a iconografia dos empreendimentos imobiliários faraônicos característicos das metrópoles contemporâneas e as implicações sociais dessas empreitadas ambiciosas. Utilizando-se dos métodos de divulgação comuns às próprias empreiteiras, Steenbock desenvolve projetos fictícios absurdos e estabelece situações de divulgação e relacionamento dessas obras com o público, seja por meio de panfletagem nas ruas ao redor do proposto empreendimento, ou criando um stand de vendas, com funcionários uniformizados e vídeos institucionais. Seus projetos são levados às últimas consequências, como quando propôs a construção de um templo megalomaníaco suspenso sobre um shopping center em Sorocaba, no interior de São Paulo. A população ficou estarrecida e o assunto ganhou a primeira página dos jornais locais, gerando profundos debates sobre o direito à cidade e a paisagem. Para a exposição em questão o artista apresentaria maquetes de alguns desses projetos anteriores como o do Templo IDCH de Sorocaba, o Hotel Tropical (um hotel em forma de banana que seria construído na Baía de Guanabara no Rio de Janeiro e que foi, originalmente pensado como sátira nos anos 1970 pelo artista e também arquiteto Milton Machado) e também o projeto de expansão fictícia da Escola de Artes Visuais do Parque Lage no Rio de Janeiro. Finalmente, para a versão virtual, o artista desenvolveu um projeto inédito, também site-specific, articulando o museu em questão e seu entorno. Desenhando uma nova reforma em formato de ovo gigante no Centro de Vitória, submetendo o museu recém inaugurado a outros 8 anos de fechamento, a notícia foi repostada inúmeras vezes em redes sociais e jornais locais. Importante mencionar que por esse projeto, a exposição Tirante foi mencionada na capa do jornal Folha de São Paulo, um dos periódicos de maior circulação do Brasil.
Assim, a íntima relação entre arquitetura e arte não é algo recente. Muitos artistas têm, ao longo das décadas, se valido de dispositivos e ferramentas comuns ao campo da arquitetura para pensar trabalhos de arte. Consequentemente, refletem sobre a relação com o espaço e os indivíduos, além de questões sobre escala, matéria, forma e função. Artistas como Gordon Matta-Clark, Richard Serra e Olafur Eliasson utilizaram a maquete enquanto objeto de estudo, para pensar suas aplicações posteriores em escalas reais e/ou monumentais; enquanto outros, como Hélio Oiticica deixariam um enorme acervo de projetos detalhados para construções futuras, como nos Penetráveis Magic Squares, concebidos durante a década de 1970, que incluíam maquetes, esboços e plantas baixas. Outro exemplo de um projeto semelhante é a exposição “Obras, pensamentos e experiências” de Anish Kapoor no Museu de Arte Contemporânea de Serralves (2018-2019), em Portugal, em que apresenta diversas instalações no jardim mas também maquetes de projetos executados ou não pelo artista ao longo de trinta anos. Nesse caso específico, a maquete é entendida como protótipo, não como trabalho de arte per se, mas tal qual o esboço em desenho que antecede o trabalho final, pode revelar nuances muitas vezes ocultas da articulação mental dos artistas. Dessa forma, a exposição se propõe também como laboratório, na medida que apresenta trabalhos finalizados, abrindo o processo criativo para o público, mas também obras ainda em desenvolvimento.
O diferencial do projeto se dá em especial pela ambição de discutir o caráter híbrido das práticas artísticas contemporâneas como vetor discursivo. A atividade fronteiriça é compreendida não só como assunto, mas como eixo central do desenvolvimento e execução do projeto, que tem a materialidade do modelo arquitetônico como fio condutor. Isto é dizer que o grupo de artistas envolvidos assume diversas funções concomitantemente e o projeto como um todo é pensado de forma colaborativa.
Outro ponto interessante da proposta é que ela possui uma curiosa e rara característica: trata-se de um projeto pensado por uma artista que por sua vez também é a responsável pela reformulação arquitetônica do próprio espaço do museu. Dessa forma, o trabalho da artista se propõe como uma volta ao museu para discutir justamente os tensionamentos entre os campos da arquitetura e da arte, mas também entre prática curatorial e artística.
Mais do que uma ocupação do espaço expositivo do Maes, Tirante pode ser compreendido como uma plataforma para reflexão e proposição ativa da constante transformação entre os papéis do artista, curador, crítico, educador e dos públicos. Dessa maneira, em um relacionamento horizontal, todos os envolvidos colaboram com a formação do conjunto, em contraposição ao que pode ser entendido como o processo mais tradicional de criação de conteúdo expositivo. A ideia da curadoria é repensada, na medida em que os próprios artistas estarão envolvidos diretamente na criação da articulação entre os trabalhos, no desenho da exposição online e de atividades paralelas.
O projeto pretendeu ainda estreitar os laços com a comunidade acadêmica, numa parceria com a Universidade Federal do Espírito (UFES), na forma de encontros direcionados para estudantes de Graduação e Mestrado dos cursos de Artes Plásticas e Artes Visuais, e Arquitetura e Urbanismo. Com o cancelamento de aulas e alteração da rotina acadêmica, só foi possível realizar um único encontro, proposto pela artista da exposição e professora universitária Raquel Garbelotti, estruturado a partir de sua prática artística e experiência docente. O encontro, intitulado “Arquiteturas Ecológicas, saberes de Oxum e expropriações minerais”, foi mediado pela artista e o Grupo Place (Plano Conjunto de Espacialidades – UFES) no dia 24 de fevereiro de 2021. Na ocasião, a artista relacionou o seu trabalho, motivado sobre o impacto do extrativismo ambiental na vida humana (Wind Fence), com textos de Donna Haraway (Antropoceno, Capitaloceno, Plantationoceno, Chthuluceno: fazendo parentes e o conto Sabela (Histórias de Leves Enganos e Parecenças), da autora Conceição Evaristo.
Como interface com o público, o projeto educativo assumiu o formato de uma programação online e offline, proposta pelos curadores e pela dupla de educadores Lindomberto Alves e Amanda Amaral. A ação foi um importante vetor para mediar as propostas contidas na exposição e sua medição com os espectadores. O programa, intitulado “Espera”, teve suas principais ações divididas em cinco grupos: Textos (Experimentos); Entrevistas (Ricardo Basbaum, Mauro Neri e Gabriela Leandro Pereira); Podcasts (Juan Gonçalves, Rebeca Ribeira e Thiara Pagani), Ação Outra-bio (com os artistas da exposição) e Formação de Professores.
Como afirmam os educadores, no blog do projeto, reconhece-se na “ação educativa a possibilidade da reflexão crítica, da ampliação de saberes e da expressão poética dos sujeitos envolvidos, propõe-se, aqui, trabalhar com a ideia de educativo como programa público, e vice-versa. (...) Vislumbra-se com isso instaurar táticas educativas em espera, as quais explorem processos, projetos e experimentos, via capacidade do projeto educativo em dar a ver diferentes camadas e potencialidades desta mostra, (...) mesmo em tempos de distanciamento social e de circulação artístico-cultural em âmbito virtual.”
Como registro e lastro físico do Projeto Tirante foi produzida uma publicação que compila os trabalhos realizados, mas também todas as entrevistas, ensaios e outras atividades propostas pelos educadores, curadores ou artistas dentro do calendário da exposição.
O projeto gráfico e identidade visual da exposição, com concepção minha, de Felippe Moraes e da designer Victoria Pianca, representou graficamente o conceito curatorial. A identidade visual incorporou elementos arquitetônicos, como o papel milimetrado e o azul das “blue prints”; já a publicação traduziu visualmente a proposta de diálogo entre curadoria e educativo. O livreto menor (azul), apresentação do projeto, abraça o maior (rosa), o programa público. Assim, a parte azul introduz o projeto, seu contexto e participantes, é atravessado pelo livreto rosa, e finalmente, retorna ao azul para revelar uma linha do tempo.
Nesse sentido, o projeto aposta no museu como programa, como lugar de debate e construção social, e a prática artística como uma potência poética e política. Em Tirante, tanto espectadores quanto artistas são ativos-tensionantes, que juntos, constroem a discussão.
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