Hors d’oeuvre (2019-)
Fora da obra: um ensaio sobre o que restar.



Em dezembro de 2019, apresentamos na galeria do Colégio das Artes, o projeto Hors d’oeuvre, dentro da estrutura que se chama Quarto 22. O projeto, realizado em colaboração com a artista Clarissa Serafim, aconteceu no âmbito da Bienal de Coimbra, evento de arte internacional que, na edição em questão, teve curadoria de Agnaldo Farias.

Há alguns anos venho refletindo sobre os códigos normalizados no meio artístico, como a folha de sala, em que estão presentes o texto curatorial e a planta baixa, o livro de presença, como uma espécie de léxico próprio ao universo da arte, que adotamos quase sem nos dar conta. O vernissage é um dos elementos que compõem esse jogo, responsável por inaugurar um evento ou exposição. Em uma possível origem do termo, a demão de verniz sobre a obra é o último passo antes de seu desvelamento ao “público”.

Em um primeiro momento, interessamo-nos pela dança social ao redor desse
evento: como as pessoas transitam pelo espaço expositivo, seus gestos, percursos e tom de voz. Colocamo-nos como observadoras-participantes de uma situação em que verdadeiramente somos atrizes e agentes. Para isso, era preciso entender o projeto como ação crítica. Dissecamos as várias camadas “comuns” aos eventos de abertura: os visitantes, que vão lá ver, e a exposição (por vezes, a persona-artista), que está para ser vista. Também notamos que nessa dinâmica há uma espécie de dieta comum: pequenas porções de comida ou canapés, o serviço comedido de bebida alcoólica em seus recipientes tão adequados; e depois, as taças e os guardanapos usados, elementos que construirão a paisagem restante.

Pouco a pouco, percebemos que esses eventos e seus componentes parecem se repetir em várias partes do mundo. A repetição nos faz acreditar que há uma espécie de linguagem a qual aprendemos para nos comunicar dentro do chamado sistema da arte. É assim que, desde seu propósito original, que podemos situar nos Salões Parisienses do século XVI, vemos o vernissage como um evento de afirmação e validação social; hoje, sobretudo, uma validação entre pares: ver e ser visto, reconhecimento como estratégia de legitimação.

Ao mesmo tempo, numa aproximação entre pesquisas, queríamos traçar paralelos entre as várias formas de ser e estar no campo da arte e da moda, de onde Clarissa parte com sua investigação. Fomos atraídas por esses universos em que a glamourização do trabalho criativo, a manutenção do status quo, o desperdício e o excesso, são lugar-comum.

Em seu primeiro momento, em 2019, o trabalho valeu-se do mistério de sua
divulgação. Dentro do calendário da programação convergente da Bienal, lia-se um texto propositalmente vago sob o gênero de “performance”. Achamos interessante a produção da Bienal ter tido tal leitura sobre o trabalho e abraçamos a interpretação. No Quarto 22, espaço onde está também a recepção das galerias do Colégio das Artes (e onde normalmente é servido o coquetel de inauguração) montamos uma mesa com características dionisíacas: uvas, queijos, pães, vinhos, folhagens abundantes, a luz dos candelabros, tudo meticulosamente disposto celebrava o excesso.

O ato em si, nem performance, nem instalação, uma vez apresentado no espaço expositivo, pareceu ganhar sentido como trabalho de arte. Mas não foi de fato o banquete, nem os visitantes que o fizeram. É a intenção e o lugar, inscritos dentro de um sistema maior de relações (a própria arte), que determinaram sua condição artística. 

A transmutação a olho nu da investigação-banquete para a experiência estética fez emergir o trabalho. Banquete com ares cenográficos dividido em atos, em que chegam pouco a pouco comensais sem saber sê-los (foram em busca de uma performance); falam baixo, com o respeito que o espaço da arte solicita; e pouco a pouco se dão conta que há vernissage, mas não há exposição. Uma câmera discretamente posicionada registrou o contra plano do banquete. Quase não se vê a mesa, mas sim, as silhuetas dos visitantes, o tilintar das taças, as vozes em crescendo.



01.Imagens da Bienal de Coimbra, 2019.

O segundo momento, realizado com algum atraso somente em 2022, foi de fato uma exposição. Pensada como uma instalação na forma de um banquete branco, o trabalho incorpora o vídeo de seu passo anterior e também uma fotografia em vista superior da primeira mesa. Agora, completamente imaculada, a instalação incorpora o cubo branco como dado. O espaço e o trabalho igualmente alvos evocam (ali sim) uma experiência estética ao redor do hermetismo da arte contemporânea. Dois ruídos perturbariam o espaço supostamente inabalável: sobre a mesa posta estariam uma série de guardanapos de tecido, que dobrados, não revelariam exatamente a big picture: são impressões da fotografia do banquete anterior; do silêncio da galeria surgem vozes que não podemos traçar a origem.

Feito um palimpsesto, cada ato de Hors d’oeuvre incorpora passos de seu momento anterior. E assim, sem que se possa saber para quem a mesa foi colocada, se os alimentos são comestíveis, de onde vem os ruídos que se escutam, é montada uma cena.



02.

Fotografia 35mm PB: Clara Sampaio.




03.
Fotos PB: Nathan Costa (analógicas)
Fotos color digital: Clara Sampaio

O terceiro momento se deu na forma de uma residência artística, realizada no
Teatro da Didascália, em Joane, Portugal, em maio de 2021. O projeto foi selecionado na residência Fauna e foi proposto como uma experiência em processo. Não sabíamos exatamente o que faríamos no local; a intenção primordial era entender as dinâmicas do lugar e seus habitantes. Aproveitaríamos o ambiente da residência como forma de refletir sobre o trabalho, debater seu futuro e, claro, criar uma situação instalativa no local.
Habitamos o backstage do teatro durante quinze dias. Desde o início, foi inevitável incorporar naquele terceiro ato as escalas pouco humanas de uma construção estreita e muito comprida, o eco e a dramaticidade da black box, a vegetação seca, mas abundante do entorno. Fora, fora mesmo da obra, em um teatro distante dos centros, sem público, sem abertura, num ponto perdido no mapa.

Antes da residência em si, fizemos uma pesquisa iconográfica ao redor de pinturas de natureza morta, que nos levaram a trabalhos como Still Life with Cheese (Floris Claesz. van Dijck, c. 1615); Still Life with a Gilt Cup (Willem Claesz. Heda, 1635) e Banquet Still Life (Adriaen van Utrecht, 1644). Buscamos na investigação dessas imagens entender o que compõe tais paisagens agonizantes, em que os elementos retratados, mesmo que decadentes, são alçados à eternidade do tempo. Desviam-se do fim próximo e palpável, como denunciam a composição por vezes caótica de objetos, a oxidação das frutas, o
pouco frescor no olho do peixe e as cascas de pão a amontoarem-se sobre a mesa. Seria o ato da exposição e seus eventos uma outra forma de Vanitas?

Com base nessas reflexões, organizamos uma espécie de “déjeuner sur l’herbe contemporâneo” (Édouard Manet, 1863), cujos comensais foram alguns membros da equipe do Teatro e um casal de amigos. Em um espaço aberto, à luz do dia, com a vibração do vento e da paisagem verdejante, o evento se deu em um lugar liberto do ambiente expositivo e do jogo social da inauguração. Os elementos naturais do banquete foram encontrados localmente durante a residência: vegetação coletada para os arranjos e alimentos produzidos por fornecedores locais.

Ao desenhar o banquete, veio a clareza de que o trabalho consolidar-se-ia, de fato, com o término do evento. Foram aplicadas técnicas para criação de uma escrita no toalha da mesa. Cada participante deixaria rastros de sua presença na tela branca que poderia dar vida futura ao trabalho. Transladada ao palco, a mesa completa foi objeto de nosso escrutínio nos dias seguintes: observamos o declínio dos alimentos e das plantas. E foi assim que de fato o trabalho aconteceu, ao terminar de inscrever no pano a passagem do tempo. Os líquidos que verteram dos alimentos, as manchas das frutas, do vinho e das mãos contam agora a história daquele momento fugaz, vivido entre poucos.



04.Imagens da Residência no Teatro da Didascália, 2021.

Em todos os três casos, investigamos as condições de circulação e recepção de trabalhos de arte a partir do sistema de relações conjurado pela Arte. O deslocamento conceitual da mesa faz com que o objeto produza uma espécie de campo gravitacional que promove a partilha do alimento e da vida; é ela seu próprio site, um dispositivo que faz o trabalho acontecer e a ele se dirige. Assim, o projeto assume formatos distintos: primeiro a intensidade de um evento único; em seguida, como exposição (o que está à mostra é resultado de uma pesquisa/ação), e finalmente, como residência artística, em que o próprio tempo de investigação constrói e faz o trabalho acontecer. O título parte da interpretação do termo em francês, que significa o canapé ou aperitivo, o que antecede o prato principal. Ao mesmo tempo, pode ser lido literalmente como “fora da obra”, propondo uma reflexão sobre o que fica para além do espetáculo social da arte. 

Nesse sentido, Hors d’oeuvre é proposto como um comentário crítico às dinâmicas mencionadas, mas não finda aí. A partir da experiência ativa, habita
simultaneamente os lugares entre a proposição e a participação, para finalmente acontecer com o que restar.




Apresentado em:
Anozero Bienal de Coimbra (2019)
Teatro da Didáscalia / Residência Fauna (2021)
Colégio das Artes (2022)