Terra Incógnita (2023, em processo)
Clara Sampaio e Clarissa Serafim


Refletindo sobre a freneticidade do consumo na sociedade contemporânea, a instalação têxtil Terra Incógnita é compostas por materiais descartados convertidos em fio. Pretende-se a construção de uma espécie de cartografia de um “lugar sem dono”; o qual queremos aprender a navegar e a habitar. Totalmente realizado com materiais de refugo e/ou descartados incorretamente, a proposta une uma crítica aos modos de estar (ou mal-estares) contemporâneos aos saberes tradicionais, nomeadamente o da artesania e o da tecelagem, e está apoiada por uma imersão durante residência artística e o recebimento de acompanhamento crítico durante o processo de feitura da obra.

O projeto dá continuidade ao processo de criação de Clarissa Serafim e Clara Sampaio, artistas envolvidas com a produção de trabalhos que discutem questões sociais no cruzamento com a arte contemporânea, e questiona os sistemas da arte e da moda como produtores de padrões e procedimentos que levam ao esgotamento do planeta; à produção massiva de bens de consumo; a substituição de tradições pela homogenização imposta pela globalização; e com isso, também promovem apagamentos e desigualdades sociais. Durante dois anos, as artistas coletaram materiais advindos da construção civil, da embalagem de alimentos consumidos e outros objetos encontrados (como restos têxteis) .

Através do ato de tecer, reflete-se sobre a constituição do tecido social: o indíviduo como parte de um sistema maior de relações, co-responsável pelo ambiente e os relacionamentos que estabelece.  Toda atitude a favor da desaceleração dos modos de produção, é, como teoriza Ailton Krenak, importante liderança indígena brasileira, parte de uma “estratégia para adiar o fim do mundo”. Assim, entendemos que o mapa dessa “Terra nullius”, pouco cuidada e relegada aos interesses do capital, só pode mesmo ser construído a muitas mãos. É uma estratégia para dar a ver o que tem sobrado da ação humana da Terra, e com isto criar algo novo. 

É, portanto, um projeto que pretende refletir sobre o “fora”, esse que lugar que diariamente recorremos para destinamos as coisas que não nos parece ter uso. A escolha pela construção têxtil da obra, propositalmente como um resgate às tradições, é um posicionamento para pensar um futuro olhando para o passado, e é também, um enfrentamento à produção de objetos descartáveis ou cuja vida útil é sempre efêmera.
      



01.Processo de construção da instalação


02.Testes de materiais