Natan Dias
Texto realizado sobre a obra homônima do artista Natan Dias para o catálogo do Parque Cultural Casa do Governador, Vila Velha, Brasil, local onde o trabalho está permanentemente exposto.
Foto: Clara Sampaio, fotografia 35mm pb, 2023.
Movimento à Tecnologia (2022) , obra do artista Natan Dias, surge a partir da observação da cidade, seus habitantes e trânsitos, que parecem desenhar cortes na paisagem. Com um corpo de trabalho baseado na investigação sobre a tradição e o comportamento do ferro, as várias vertentes da palavra tecnologia e a importância da teimosia; o artista reflete nesta (e em outras experiências) sobre os apagamentos institucionais e temporais que se conectam com sua origem familiar e ancestral. Os lábios da sabedoria estão fechados, exceto aos ouvidos do entendimento (1).
A ideia de movimento contradiz aquela do monumento tradicional, coisa estanque, celebratória de um tempo que passou; e se aproxima mais ao monumento de Walter Benjamin (2), documento vivo de memória viva; de lutas e contradições. Do Bairro do Teimoso, nome original da região onde sua família criou raízes, o artista tem desenvolvido uma pesquisa que entrelaça matéria e memória: obstinação em reconstruir o que por vezes é desmanchado pelas autoridades, recriar como ferramenta de sobrevivência. Trata-se, portanto, da materialização de um esforço que ele considera desobediente, insistente, que envolve uma série de estudos, tentativas e erros: movimento.
não sou eu quem vai ficar no porto chorando, não / lamentando o eterno movimento dos barcos (3).
O gesto de ir e vir do facão teimoso, o fogo que corta o ferro, os imensos corpos metálicos que se deslocam na baía. Esses conceitos plásticos motivam a forma da obra, realizada a partir de estudos em volumetria e prototipagem. O objeto pousa sobre a formação rochosa do parque, em uma altura que permite sua visualização à distância. Olha para a paisagem e é visto, porque são dois lados da mesma viagem (4).
Pousa leve sobre a matéria bruta o corpo pesado forjado no fogo; descansa, se une ao mineral que o sustenta. Conecta essas histórias com a terra, num fluxo contínuo de energia, que é o que faz tudo ser possível e uno: o que está embaixo, (que) é como o que está no alto; e o que está no alto, é como o que está embaixo, ele escreveu (5).